

A PESTE :
O VALOR DA OBRA DE CAMUS
EM TEMPO DE CORONAVIRUS

PROFª VERA LÚCIA LOPES DIAS
Atualmente estamos às voltas com um surto global do novo coronavírus e um romance improvável, escrito em 1947 , dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, está ganhando posições nas listas dos mais vendidos em vários países da Europa. A narrativa dessa obra foi escrita pelo franco-argelino Albert Camus. Não apenas esse, mas outros livros de ficção que se passam em situações de epidemias ou pandemias, como Ensaio Sobre a Cegueira (1995), do português José Saramago, e de não-ficção como Morte em Veneza (1912) , do escritor alemão Thomas Mann, que descrevem a disseminação de doenças no passado, estão agora constantemente sendo lembrados. Eles despertam a nossa vontede de saber mais sobre as grandes epidemias que assolaram a humanidade no passado.
Além dessas duas obras , sempre recomendo a meus alunos que leiam também ,pois são excelentes guias para a época que vivemos, os seguintes livros : História da Humanidade Contada Pelo Vírus junto com A História das Grandes Epidemias, do autor Stefan Cunha Ujvari ; Cidade Febril:Cortiços e epidemias na corte imperial, de Sidney Chalahoub, Peste e Cólera, de Patrick Deville , O Terribilíssimo Mal Do Oriente: O Cólera Na Província Do Espírito Santo (1855-1856) de Sebastião Pimentel Franco.
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É natural que em momentos como esse observarmos o fato dos europeus estarem procurando se informar por meio de obras com a temática, uma vez que a Europa já passou por grandes epidemias ao longo dos séculos e é uma das regiões mais atingidas pelo coronavírus. No entanto, a situação no Brasil é distinta e não há como prever os próximos cenários. Com um governo cujo mandatário se comporta como a rainha Maria Antonieta da França, tal como naquele espisódio famoso de rclamar com seu ministro que não entendia porque a população fazia tamanha gritaria às portas do Palácio de Versalhes pertubando o sono dela e do rei e o ministro responder que o povo estava revoltado porque não tinha pão e elea retrucar que eles então deviam comer brioches. Está completamente sem noção da gravidade dessa epidemia que assola o mundo atualmente.
Assim sendo, na atual conjectura, não é uma má ideia que todos tenham por perto o clássico “A Peste”, de Camus. Por conta do aumento de casos de covid-19, a crônica teve suas vendas dobradas na França neste início de ano e foi alçada a terceiro livro mais vendido na Itália — juntamente com a retomada das vendas de “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago, que chegou a quinto mais vendido no país.
Para quem não a conhece, trata-se da história de uma epidemia que dizima grande parte da população da cidade de Orã, na Argélia. Em meio a um surto que expulsa ratos dos esgotos e gera pilhas de cadáveres humanos, transformando a vida de pessoas em dados estatísticos, o doutor Rieux tenta combater a morte com o que faz de melhor: curar um doente de cada vez.
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Nestes últimos dias, alguns veículos da mídia internacional têm relembrado da obra como um tipo de antídoto, não só para o coronavírus, mas para a negligência de parte da administração da saúde pública em países atingidos, para as fake news que circulam e para o medo por parte da população que pode chegar até à xenofobia.
Aqui no Brasil, além de opor-se a uma eventual histeria por conta da doença, Camus também pode nos inspirar a lidar com mazelas que ultrapassam essa questão. Sua obra põe em evidência os princípios da sabedoria e da coragem como formas de lidar com os excessos das nossas patologias histórico-estruturais.
A obra de Camus foi fundamentada em estudos do escritor sobre epidemias que atingiram a Europa, o Oriente Médio e a própria Argélia em diferentes momentos históricos, além de nutrir-se bastante da estrutura e do embate entre homem e natureza da obra “Moby Dick” (1851), de Herman Melville. Quando foi publicada, “A peste” serviu como analogia para a ocupação alemã em Paris durante a Segunda Guerra, trazendo a violência absurda e arbitrária para o cotidiano das pessoas. A epígrafe emprestada de Daniel Defoe — “É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe” — conecta o confinamento do livro ao mal da “maladie” (“doença” em francês) que ameaçava o leitor na época.
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Mais tarde, em carta a Roland Barthes de 1955, como lembra artigo do Le Monde, de 3 de março, Camus afirma que a obra descreve “a luta da resistência europeia contra o nazismo. A prova disso é que mesmo esse inimigo não sendo nomeado, todo mundo o reconheceu em todos os países da Europa”. Com todo bom clássico, o livro volta a ser atual e traz uma mensagem de alerta ante os regimes totalitários sempre à espreita, afinal, “o bacilo da peste não dorme nem desaparece nunca”.
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A Peste devido às suas características foi reunida junto com outras obras de Camus no que ele denominou de Ciclo de Prometeu — a figura mitológica cuja revolta contra os deuses consiste em transmitir a sabedoria do fogo aos mortais. Estamos hoje no olho do furacão tendo que encarar o desafio dessa pandemia de coronavírus e as decisões nefastas do atual governo com consequências atrozes para o meio ambiente como a devastação da floresta Amazônica e e para os grupos mais frágeis ao redor do mundo, é preciso que mantenhamos nossa lucidez.
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Uma coisa é certa : mesmo que não seja possível vencer a peste da noite para o dia, o livro de Camus nos mostra que há outras formas de combatê-la: cuidando da saúde dos doentes, como alguns médicos têm feito; encarando-a com inteligência, como cientistas da USP (Universidade de São Paulo), liderados por Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus, fizeram ao sequenciar o genoma do coronavírus em tempo recorde; ou ainda, buscando a medida certa para o diálogo, como Dráuzio Varella e muitos outros profissionais da saúde que têm feito brilhantemente seu papel ao aconselhar a população diante da nova epidemia.
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É importante aqui ressaltar que Camus valoriza a união dos combatentes em contraposição às reações xenofóbicas ao vírus. A história narrada em a Peste se passa numa cidade monótona, repleta de homens em quarentena, que tiveram que se separar de esposas e filhos, as palavras se tornam raras e sem sentido. A memória de momentos felizes se faz nebulosa. O elo entre os habitantes é ameaçado, pois a constante lamúria perde sua força. Como resposta, a amizade do doutor Rieux com o viajante Tarrou demonstra que o amor e a dedicação, são a resposta e ambos contêm a força necessária para combater o flagelo e o mal que nos atingem todos os dias. .Pois é nessa épocas de doença e de instabilidade política, também redescobrimos o potencial humano dos que diariamente enfrentam os governos e seus vírus.
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Camus com sua narrativa nessa sua brilhante obra, nos faz perceber que certos discursos políticos autoritários, assim como os seres microscópicoscausadores das doenças, são abstrações niilistas que nos dispersam e aniquilam. Em t empos de resistência à epidemia e aos desgovernos que nos agridem, num momento de necessidade urgente de uma frente ampla para a defesa de direitos humanos, o retorno à obra de um escritor que nos deixou há 60 anos pode ser bastante oportuno. Sua própria vida de resistente é um exemplo: Camus encontrou na escrita a força para enfrentar tanto o nazismo quanto as limitações físicas da própria tuberculose descoberta aos 17 anos.
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Camus visitou o Brasil em 1949 e se impressionou com o contraste “fornecido pela ostentação de luxo dos palácios e dos prédios modernos com as favelas”, como escreve em seu “Diário de viagem”. Mas em diversos momentos nos seus escritos ele procurou ser otimista quanto ao destino da humanidade. Se o desfecho da peste é um aviso para nos mantermos de olhos abertos, nesse mesmo diário, ele chegou a sonhar com o dia em que nós, brasileiros, nos revoltaríamos contra nossa condição:
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“O Brasil, com sua fina armadura moderna colada sobre esse imenso continente fervilhante de forças naturais e primitivas, me faz pensar num edifício corroído cada vez mais de baixo para cima por tranças invisíveis. Um dia o edifício desabará, e todo um pequeno povo agitado, negro, vermelho e amarelo espalhar-se-á pela superfície do continente, mascarado e munido de lanças, para a dança da vitória.”
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Não há dúvida que hoje estamos em busca de respostas objetivas para reagir à doença, a polarização e nosso ódio estrutural. Sendo assim, a obra do escritor é um exemplo de como a literatura, com sua capacidade de conciliar fruição a potencial didático, pode oferecer um caminho para lutarmos e preservarmos nosso elo em meio ao caos: é preciso uma revolta fraterna e lúcida em tempos de coronavirus.

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Mas muitos outros títulos poderiam ser chamados a compor a nossa lista, vindos de tempos ainda mais remotos, como a tragédia de Sófocles, Édipo Rei, herói cujos crimes não expiados – o parricídio e o incesto – trazem a peste para Tebas. Vale também evocar o romance menos conhecido do inglês Daniel Defoe, Um diário do ano da peste, publicado em 1719; a primorosa novela do alemão Thomas Mann, Morte em Veneza, sobre a epidemia de cólera em Veneza, publicado originalmente em 1912, ou O amor nos tempos do cólera, do colombiano Gabriel García Marques, lançado em 1985, para ficarmos em apenas alguns exemplos.
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Se passamos das epidemias em sentido estrito ao campo mais vasto das doenças e a literatura, o rol de obras se avoluma consideravelmente, chegando mesmo a influenciar certos estilos de época (o que seria a poesia romântica sem a tuberculose?).
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Mas o que buscam os leitores nessas obras cujas páginas se abrem ao vírus e à bactéria, ao verme e ao carbúnculo? O consolo de entender como outros, antes de nós, padeceram de modo semelhante, sucumbindo ou sobrevivendo, desistindo de lutar ou legando aos pósteros o testemunho de seus esforços e de sua esperança?
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Neste momento em que, por causa do confinamento, a literatura é receitada como distração ou remédio contra o tédio, principalmente para as crianças confinadas, afastadas do cotidiano escolar, para leitores mais velhos, o benefício da literatura talvez derive tanto do seu potencial de “evasão” da realidade quanto do contato que ela propicia com seus aspectos mais sombrios.
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Nesse sentido, obras que tematizam a doença na literatura, os padecimentos, a morte e o luto revestem-se de grande importância justamente por nos desalienar diante do que consideramos as condições “normais” de existência, e que muitas vezes nos afastam de aspectos decisivos da experiência humana. Situações que suspendem a suposta “normalidade” das coisas, a qual pode não passar de uma ilusão consentida, podem até mesmo nos despertar para o que há de opressivo em uma vida que nunca sai dos trilhos.
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Romper com os hábitos perceptivos, impelir a sensibilidade noutras direções pode ser, assim, um dos benefícios da literatura (até quando ela própria se converte em uma “doença”, o bovarismo, como bem demonstrou Gustave Flaubert).
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Além disso, mesmo para leitores menores, a tematização da doença na literatura para desmistificar certa concepção edênica da infância, segundo a qual os tumultos do corpo e do mundo deveriam guardar certa distância das páginas oferecidas a esse público.
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No entanto, sob o pretexto de oferecer o que se julga mais apropriado aos leitores, conforme a idade, o temperamento e as circunstâncias, muitas vezes se perde a oportunidade de estabelecer relações fecundas entre o que se lê o que se vive, ou de levar o leitor à descoberta da própria literatura como uma experiência viva, capaz de elevar a temperatura de quem dela usufrui, fonte de uma febre benigna que nos imuniza contra a desumanidade.

VÍDEOS
PEÇA DE TEATRO BASEADA NO LIVRO A PESTE DE CAMUS
Adaptação do romance "A Peste" do autor Albert Camus, com Direção de Vera Holtz e Guilherme Leme Garcia. Um monólogo com o ator Pedro Osorio. Realizado no Centro Cultural Banco do Brasil BH, em 2018.
SINOPSE : Orã, na Argélia, era uma cidade como outra qualquer. Tão comum que, quando uma epidemia faz a sua primeira vítima no lugarejo, algo ficou fora do lugar: a cidade parecia imprópria até mesmo para adoecer. A Peste é a obra prima do escritor francês Albert Camus, e nos mostra como é viver com a morte sempre à espreita. Conforme a doença se alastra, aprendemos mais sobre o comportamento dos homens em tempos sombrios, e surge a pergunta: existe espaço para o outro quando se tem de salvar a própria pele?
Vídeo gentilmente cedido pela produção da peça A Pste de Camus. O ator Pedro Osorio recebeu o professor #LeandroKarnal para um bate-papo após o espetáculo, no Teatro Eva Herz em São Paulo. O espetáculo fica em cartaz até 15 de dezembro e tem direção de Guilherme Leme Garcia e Vera Holtz.
Do original “Albert Camus: Un Combat Contre L'Absurde”, esta é a história de um dos maiores autores franceses do século XX. Um escritor que, num mundo que desconfia da ideologia, finalmente recuperou o lugar que lhe era devido e o respeito daqueles que preferem a justiça e a verdade ao dogma e ao extremismo. Em colaboração com Olivier Todd, autor de "Camus: a life", o filme evoca a vida de Camus, seu trabalho e suas viagens. As partes interessadas foram selecionadas do círculo de seus amigos mais próximos e especialmente de cinco mulheres que a apoiavam. Cada um nos traz de volta à vida com ela. O filme foca três de suas obras, talvez as mais importantes: O Estrangeiro, A Queda e O Primeiro Homem, e nos leva ao cenário de sua criação: Argélia, Paris e Provence. Através de sua correspondência, através dos testemunhos de seus amigos mais íntimos, descobrimos a tremenda trajetória pessoal que foi a vida de Albert Camus.
